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O Mestre

Mestre Burguês

Mestre Burguês

MESTRE BURGUÊS

Antonio Carlos de Menezes, o Mestre Burguês, nasceu no dia 06 de setembro de 1955 na cidade de Laranjeiras, Sergipe. No entanto, é sergipano apenas por este fato: não passa sua infância na terra natal, mas sim no Rio de Janeiro, emigrando a família para a capital fluminense quando ele estava com apenas três meses de vida. Lá, fixam moradia nas redondezas da Escola de Samba Imperatriz Leopoldinense, anexa ao Morro do Alemão. Esta proximidade fez com que sempre estivesse envolvido com o samba. A capoeira também era presente neste espaço, levando a seu encantamento:

Você ouve o berimbau, é uma coisa que é contagiante. E o sangue do nordestino também, isso tudo acho que influencia muito. E a Capoeira foi a minha paixão, vi a primeira vez e fiquei louco. Falei é isso que eu quero.

As dificuldades financeiras enfrentadas pela família, aliadas ao preconceito dos pais com relação à Capoeira – pensada por eles como coisa de negro e marginal- impedia o pagamento de aulas desta arte-luta, levando a que o Mestre, quando com cerca de doze anos, recorresse a um livro intitulado “Capoeira sem Mestre”, publicado pela Edições de Ouro, a fim de realizar seus primeiros treinamentos. Com o amigo Nelson, que já tinha pequena experiência na área, observavam no livro as ilustrações dos movimentos e tentavam repetí-Ios. Nesse mesmo período, os dois amigos começaram a assistir rodas de capoeira no bairro de Ramos, onde conheceram Mestre Paulão. Vislumbraram a possibilidade de sair da mera repetição dos movimentos do livro para o treinamento mais sistemático, com orientação, em academia. Mestre Burguês a fim de viabilizar o projeto de adolescente (tinha então quatorze anos), passou um tempo juntando garrafas, cobre e chumbo, e assim reuniu o dinheiro para pagar as três primeiras mensalidades. Garantia, desta maneira, um tempo mais longo de treinamento, afastando o risco de precisar interrompê-Io por falta de recursos. Curiosamente, este fato lhe rende o apelido que carregará por toda a vida, Burguês, recebendo Nelson o de Conde. Passados os três primeiros meses, os dois “ricos meninos pobres” negociam a possibilidade de continuar na academia através da troca dos treinamentos por serviços de limpeza e cuidados do espaço.

Mestre Paulão foi, para Burguês, o único Mestre de sua vida. Ao abordar sua linhagem na Capoeira, ele explica que é neto de Mestre Mentirinha, o irmão de Mestre Paulão que foi responsável pela formação deste, e que era conhecido também como exímio tocador de berimbau. Mestre Mentirinha, por sua vez, vinculava-se à escola de Mestre Paraná – uma das três escolas responsáveis por retomar a capoeira no Rio de Janeiro, na década de 1950. O que ocorre segundo o modelo baiano, após o fim da criminalização da prática instaurado no início da República – retomada necessária devido à criminalização ter praticamente dizimado a Capoeira carioca. Ao abordar a temática, Burguês aponta as duas outras escolas com influência baiana na Capoeira do Rio, na década de 1950, como a do Mestre Artur Emídio (também lutador de vale tudo) e a do Mestre Mário Buscapé.

Em 1975, convidado por um amigo que já era professor em Curitiba, Burguês vem para a capital paranaense, local onde reside por décadas. Os primeiros tempos não são nada fáceis, sendo necessário um esforço significativo para que a arte/jogo/luta fosse conhecida e reconhecida pelos curitibanos. Mas paulatinamente a Capoeira ganha espaço na cidade e as condições melhoram:

Eu tinha um amigo que já estava dando aula aqui, chamava Monsueto, que era do Rio de Janeiro. E vim para cá com a cara e a coragem, somente com a passagem de vinda para Curitiba, e acabei ficando aqui. Passei muitas dificuldades tais como fome, frio. Passei mais de seis meses aqui comendo só banana, foi um sofrimento.

O primeiro local onde eu comecei a ministrar aulas foi na Galeria Ritz: Centro de Artes Orientais, do Prof. Akira Tanigushi. Neste período eu morava dentro da academia por não ter condições financeiras. Passava os finais de semana trancado escondido na academia, desde sexta-feira a noite até a segunda-feira, devido ao fato de que o prédio era comercial e só abria durante a semana.
Quanto ao ensino de Capoeira na cidade trabalhou muito para a divulgação da Capoeira,

conforme o próprio Mestre afirma:

Minha trajetória aqui começou assim, trabalhando, com muita dificuldade. Só existia um mestre na cidade. Já estava aqui antes, chegou aqui uns dois anos antes de mim. Ele é o mais antigo. E lutamos muito aqui, fizemos muita roda na rua para poder divulgar … Saía na rua, todo mundo perguntava que era aquilo que a gente andava na mão, se era uma vara de pescar, se era um cachimbo … Então realmente, quando eu cheguei a população de Curitiba era seiscentos mil habitantes e quase não existia negros na cidade, era uma dificuldade. Era muito estranho para mim que vim do Rio, onde tinha muitos negros. Fazia roda de Capoeira só com brancos. Segundo Mestre Burguês, Curitiba é o local que lhe dá condições de consolidar o seu grupo, hoje presente em vários países do mundo. Mesmo com os inúmeros empecilhos enfrentados, a chance de dar aulas em academia foi o que o manteve na cidade. Resistindo inclusive, nas épocas difíceis, a convites de amigos para ir embora – como aconteceu com um grupo de shows vinculado a Ivon Cury que passou por aqui, e do qual fazia parte seu amigo Mestre Edvaldo Baiano. Em seu relato, sua história se mescla à do Grupo Muzenza, por ele consolidado a partir de sua atuação em Curitiba.

Este, contudo, não se iniciou na capital paranaense: foi fundado por Mestre Paulão, ainda no Rio de Janeiro. Oriundo do grupo de Mestre Mintirinha, Capoarte Filhos de Obaluaê, passa à presidência para Mestre Burguês após o ingresso de seu Mestre na Marinha. E é no Paraná que se fortalece, inicialmente denominado Netos da Muzenza e, posteriormente, apenas Muzenza – tanto que o próprio Mestre, mesmo nordestino e atualmente residindo na capital fluminense, é ainda identificado como sendo do Paraná. Suas palavras sintetizam a trajetória do grupo:

Cheguei aqui e comecei … fiquei um bom tempo dando aula para dois alunos , e um desses alunos é que me ajudava na minha alimentação. Não ganhava dinheiro nem pra comer. E fui crescendo, divulgando muito a Capoeira. Ia às ruas de madrugada colar cartazes na rua e panfletava na porta de colégios. E fazia muita roda na rua, sozinho às vezes. Tinha que fazer exibições sozinho para tentar trazer alunos, ganhar adeptos. E a coisa foi crescendo, devagarzinho, devagarzinho. Depois mais tarde abri um núcleo em Foz do Iguaçu. Foi o primeiro núcleo que eu tive. Começou a crescer a nível estadual, comecei a ter uma repercussão a nível nacional, capoeiristas de outros estados passaram a me procurar para serem meus alunos. Hoje temos filiais em todos os estados do Brasil e em 49 países.

Ao ressaltar a discriminação e as dificuldades enfrentadas pela Capoeira neste período, Mestre Burguês relata como foi conquistando espaço e expandindo seu trabalho. Em um primeiro momento, seus alunos eram adultos, trabalhadores e estudantes, sendo o público infantil praticamente inexistente. Após algum tempo de atividade na Galeria Ritz, consegue inserir a prática também em diversos espaços da capital paranaense, tais como o Clube Curitibano, o Graciosa Country Clube, em quartéis militares, em comunidades carentes. Fez, ainda, trabalho com a comunidade negra, contribuindo para o início e crescimento do movimento negro na cidade: juntamente com Charrão, presidente da Escola de Samba Mocidade Azul, passam a comemorar o dia de Zumbi reunindo samba, Capoeira e danças folclóricas do nordeste, como maculelê e puxada de rede. Apresentam-se no carnaval, participando das Escolas de Samba Colorado, Mocidade Azul e Sapolândia, com a formação da ala da Capoeira em cada uma delas – A arte/jogo/luta estava presente, segundo ele, em todos os segmentos da cultura negra de maneira significativa.

As atividades do Grupo Muzenza não se limitavam às aulas. Começaram a organizar, a partir da década de 1980, grandes eventos de Capoeira, transformados depois em filmes, revistas, materiais de divulgação. Este material torna a Capoeira de Curitiba reconhecida nacionalmente embora o Mestre afirma das dificuldades de se obter apoio público:

Eu sempre procurei trabalhar profissionalmente, sem amadorismo. Eu acho que as coisas acontecem, quem trabalha direito acaba tendo reconhecimento. Sempre fiz grandes eventos aqui em Curitiba, que toda a comunidade gostava, muitos mestres eram loucos para virem nos meus eventos aqui. Os meus eventos começaram a ter destaque não apenas nacional, mas a nível internacional. E foram eventos que eram filmados, passados para DVD, saíram em bancas de jornais. Eu divulguei muito a cidade também. Curitiba ficou super conhecida pela Capoeira. Eu fiz muitos eventos grandíssimos aqui, com grandes públicos, mais de duas, três mil pessoas assistindo. Eu comecei a fazer eventos grandes a partir da década de 80. Sempre vieram grandes mestres, sempre 40, 50 e até mais. Um mega evento que eu fiz aqui, com grande destaque, foi em 2000, um Festival Mundial de Capoeira: “Os melhores do século.” Nós tivemos a presença de mais de 90 mestres do mundo presentes. Então era um negócio que acontecia, saía em tudo que é revista especializada de Capoeira e até na televisão.

Mestre Burguês aponta como diferencial do Grupo Muzenza a seriedade com que levam seu trabalho, exigindo dos alunos treinamento e uma preocupação acentuada com a performance e com a parte cultural da capoeira. Assume, ainda, a Capoeira como profissão e ensina seus alunos a acreditarem no que estão fazendo:

Ele poderia viver e vencer com a Capoeira. Então, acreditar naquilo que faz e passar a acreditar nesta arte-luta e por seguinte enfrentar os obstáculos do mundo a fora. Procurei formar realmente cidadãos que acreditasse que ele poderia Vencer na vida. Incentivei muita gente a estudar, tirei muita gente das drogas também.

Os eventos que organizava eram criativos e variados, incluíam sempre novos elementos (workshops, espetáculos, vínculo com o cenário do folclore nordestino e carioca, competição) e procurava envolver ao máximo os Capoeiristas que deles participavam: Sempre procurei dar visibilidade a capoeira, de fazer meu trabalho, gravar e colocar no mercado. E a Capoeira de Curitiba cresceu bastante, ficou conhecida no cenário nacional e internacional. Hoje ela está respeitada, graças ao trabalho árduo destes primeiros mestres que chegaram aqui na capital paranaense. Eu sempre procurei trabalhar todas as vertentes da Capoeira, a parte cultural, o esporte, a performance, a luta, o ritual, a musicalidade, a pesquisa. Então eu procuro trabalhar no grupo com todas estas vertentes que a Capoeira nos proporciona.

Da consolidação em Curitiba, no Paraná e no Brasil, o Grupo Muzenza inicia sua expansão internacional, que ocorre a partir do ano 1986 – com o primeiro núcleo internacional: na capital britânica. Hoje, existem integrantes em países muçulmanos, judaicos , em países asiáticos, enfim em todos os continentes. Fui o responsável pela fundação da Federação Paranaense de Capoeira em 1985, tendo sido também seu presidente por vários anos. Também fui um dos fundadores da Confederação Brasileira de Capoeira, em 1992. Fundei também a Superliga Brasileira de Capoeira em 1998. Em agosto de 2006, Mestre Burguês muda-se novamente para o Rio de Janeiro, depois de passar por um momento difícil de saúde, buscando ficar mais próximo de sua mãe, já idosa, além de retornar as suas raízes. Continua organizando eventos importantes, mas agora em várias partes do Brasil que contribuem com a divulgação cada vez maior da arte/luta/jogo. Acrescenta que, mesmo residindo no Rio, mantém contato constante com Curitiba, permanecendo com sua academia na cidade, a qual é a academia mais antiga de capoeira do sul do Brasil. Para Mestre Burguês o significado de Mestre de Capoeira é uma prática que vai além do jogo, da luta e da arte, é um espaço de cidadania. O que leva o Mestre a ter como meta formar pessoas que também colaborem com a melhoria da sociedade: Ser Mestre é ser exemplo. Um Mestre de Capoeira tem que ser exemplo de tudo a seus alunos.
Não só ensinar a arte, mas mostrar os melhores caminhos a percorrer para enfrentar a vida. Enfim, criar um cidadão realmente. Não só que jogue Capoeira, mas que ele realmente possa contribuir com a sociedade. Não adianta só ser bom de Capoeira e ter a cabeça ruim. Ele tem que saber a arte, saber ensinar. Ter alunos, mas saber direcionar estes alunos. Para formar cidadãos e poder melhorar a nossa sociedade, o nosso povo, o nosso país.

Falando da Capoeira e do lugar que ela ocupa em sua história, Mestre Burguês nos diz que, embora tenha tido contato com outras lutas, sua vida foi sempre dedicada, exclusivamente, à Capoeira. Para ele, vida e Capoeira se misturam e complementam, chegam até a confundir-se:

Todo dia eu agradeço a Deus por estar na Capoeira. A Capoeira me deu tudo, me deu a minha família, me deu os meus filhos. Tudo até hoje que eu como é a Capoeira que me deu. O patrimônio que eu consegui foi com Capoeira. Lutando, trabalhando até hoje. E eu acho que a Capoeira é um monstro que está dormindo, na hora que acordar, ela vai conquistar o mundo. Para quem passou fome aqui, comia banana, não tinha dinheiro nem para comprar um pão para comer com banana, então para mim foi uma vitória muito grande. Eu devo tudo à Capoeira. Tudo, tudo, tudo mesmo. Eu respiro capoeira, vivo Capoeira, penso em Capoeira, minha mulher é Capoeirista.

E, se a Capoeira deu tudo a Mestre Burguês, também ele, ao dedicar sua vida à Capoeira, contribuiu de maneira incontestável para consolidar a Capoeira em Curitiba, no Paraná, no Brasil e no exterior.

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